O papel do professor de tecnologia da informação na era da Inteligência Artificial
Gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o mundo em que vivemos atualmente, especialmente diante das transformações provocadas pela Inteligência Artificial (IA).
Há muito tempo venho refletindo sobre esse assunto e, de fato, hoje estamos presenciando a concretização de muitas dessas ideias. Durante muito tempo, especialmente na área de tecnologia da informação, vivenciamos um modelo de ensino em que o professor se dedicava a ensinar o aluno a utilizar determinada ferramenta. Por exemplo, ensinávamos o aluno a trabalhar com um framework específico ou a utilizar tecnologias como React, Express, Vue.js, entre outras.
Entretanto, a partir de 2022, com o avanço dos modelos de Inteligência Artificial e, principalmente, o lançamento do GPT, esse cenário começou a mudar significativamente. Hoje, temos centenas de modelos capazes de auxiliar e, em muitos casos, executar atividades tradicionalmente realizadas por programadores, especialmente no que diz respeito à escrita de código.
Diante dessa realidade, acredito que o papel do professor precisa ser repensado. Mas em que sentido? Bem, defendo que linguagens de programação, frameworks e bibliotecas são apenas ferramentas e, mesmo antes de 2022, penso da mesma forma. São instrumentos que permitem aplicar o conhecimento adquirido na construção de soluções para determinados problemas.
Entretanto, aplicar conhecimento não significa simplesmente solicitar que uma ferramenta execute uma tarefa. Aplicar conhecimento significa utilizar uma ferramenta para concretizar algo que já foi compreendido e interiorizado. É justamente nesse ponto que entram os conceitos e fundamentos que aprendemos ao longo de nossa formação.
Um exemplo bastante claro dessa abordagem está nas minhas aulas de Sistemas Distribuídos. Atualmente, valorizo muito mais a compreensão do que é um sistema distribuído, seus fundamentos, seus princípios e toda a base conceitual que sustenta seu funcionamento do que propriamente a escrita de código. Isso ocorre porque, no mercado de trabalho atual, o aluno pode aplicar esse conhecimento utilizando diferentes ferramentas.
Consequentemente, torna-se cada vez menos viável concentrar o processo de ensino exclusivamente na utilização de uma tecnologia específica. Não considero adequado dedicar grande parte do tempo a ensinar o aluno apenas a operar determinada ferramenta. Parece-me muito mais justo e relevante prepará-lo para compreender os conceitos e aplicar esse conhecimento por meio das ferramentas disponíveis. Dessa maneira, o conhecimento desenvolve a capacidade de substituir uma ferramenta por outra, conforme suas necessidades, sem perder a compreensão dos fundamentos envolvidos.
Sendo assim, com as transformações que estamos vivenciando, especialmente com o surgimento e a evolução dos modelos de Inteligência Artificial capazes de gerar código, essa reflexão se torna ainda mais importante. Na verdade, mesmo antes desses avanços, reafirmando isso novamente, já questionava a necessidade de concentrar o ensino na utilização de ferramentas específicas. Hoje, porém, essa questão se torna ainda mais evidente. Não vejo mais sentido em estruturar o ensino de tecnologia prioritariamente em torno de explicar ao aluno como utilizar determinada ferramenta.
Por fim, finalizo esse texto dizendo que o foco precisa estar na construção do conhecimento, na compreensão dos fundamentos e na capacidade de aplicar esses conceitos para resolver problemas reais. As ferramentas mudam. Os frameworks evoluem. As linguagens surgem e desaparecem. Entretanto, o conhecimento que sustenta a compreensão dos problemas e a construção de soluções permanece essencial.
Os conteúdos deste site refletem exclusivamente as opiniões do autor, não representando, em hipótese alguma, as posições de quaisquer organizações com as quais ele possua vínculo. É permitido o uso apenas para fins não comerciais, sendo proibida a criação de obras derivadas, conforme a licença Creative Commons BY-NC-ND. É obrigatória a atribuição ao site original: https://luizpicolo.com.br.